10.6.09

No fundo

Motivada pela tristeza e pela frase ouvida repetidas vezes, que se você está no fundo do poço não tem outro jeito a não ser começar a subir, resolveu que era hora de iniciar a escalada. Sabia que pela frente viriam paredes úmidas e fedidas. Quebraria algumas unhas, ralaria o joelho. Por isso ficou tanto tempo ali, encolhida no mundo que criou para se proteger. Porque não tinha forças para sentir mais nenhuma dor.

Mas o tempo de permanecer assim acabou. A primeira atitude, nada mais clichê, foi marcar hora no salão para dar uma repicada no cabelo. Assim, pra ficar moderno. A bicha com quem costumava cortar às vezes acertava, às vezes não. Se estivesse cheirada, a franja ficaria muito repicada, com pontas incontáveis, totalmente sem jeito. Se a mona tivesse apenas fumado um, ótimo. Ia ganhar um corte mais ajeitado. Mas a vida é feita de riscos, leu isso num desses livros de empreendedorismo, achou bom lembrar agora.

O corte ficou...um corte. Nada além disso. O que lhe restava de bom senso foi atualizado no momento em que o secador de cabelos foi desligado. Ficou um bom corte, nada demais. Ela não sairia mais confiante do salão, sua auto-estima não estaria renovada e dentro de um dois meses a franja já estaria sem jeito.

O procedimento padrão também exigia a volta à academia. Se matriculou, comprou roupas novas, mas baratinhas – ainda não acreditava que iria mudar totalmente sua vida e se tornar a rainha da abdutora. Aliás, sabia que existia alguma coisa de auto-sabotagem nela. Alguém precisa ter pena de mim, afinal. Acreditava nisso piamente.

O próximo passo era organizar o orçamento, que estava tão bagunçado quanto as ideias dela. Quebrou alguns cartões de crédito, chorou de desespero, ficou meia hora no telefone aguardando ser atendida para negociar a dívida, combinaram que ela pagaria em 8 vezes, com juros de 1,4 % ao mês. Detestava fazer contas, por isso concordou rapidamente.

Agora era a vez do armário, gavetas, estantes. Não vou entrar em detalhes a respeito porque arrumar tudo isso é muito chato. Ela achava, eu acho, você provavelmente acha também. A única pessoa que gostou foi a Dinalva, que levou uma sacola cheia de roupas e sapatos e brincos e cintos e bolsas pra casa.

Sim, o fim de um namoro provoca uma grande revolução na vida da gente. De certa forma, é uma ignição para um novo momento, às vezes melhor que o anterior. E pra finalizar toda essa etapa de mudança, resolveu que iria melhorar a pele, tratar as manchas, desmanchar algumas rugas, enfim, ficar mais bonita.

Marcou com a doutora Vanessa Eller às 15h40. Foi difícil sair do trabalho a essa hora. Mas era agora ou só daqui a quatro meses, querida, informou a secretária com voz anasalada. Chegou três minutos atrasada e ficou com raiva da sua falta de pontualidade, mais uma vez. Sentou, entregou a carteirinha do plano, tentou respirar para disfarçar o afobamento, pediu água e aguardou ser chamada. Começou a reparar na decoração. Tons rosas e lilases. Uma parede branca com texturas muito discretas e com vincos em baixo relevo que se cruzavam formando quadrados. Em cada ponta dos quadrados, alguma coisa brilhava. Quis levantar para olhar de perto que diabos era aquilo imitando um diamante mas se conteve.

- Flávia Damasceno!

Ela se levantou, pegou a bolsa e deu cinco passos antes de chegar na porta da sala e dar de cara com a doutora reluzente. O chão se abriu. Ela sentiu uma leve palpitação. A câmera lenta foi ativada. Ela reparou em cada detalhe daquela entidade luminosa, shinning happy person à sua frente. Cabelos num tom loiro que nunca tinha visto antes, a tintura devia ser importada. Os olhos cuidadosamente maquiados, nem um excesso de rímel, os cílios pareciam colados um a um. A pele lisa, irritantemente lisa. O corpo exato, magra sem deixar de ser gostosa. A roupa, que não era branca, era off-white. Usava joias discretas, com quartzo transparente e ouro branco, uma finura. Atrás dela, as fotos da vida perfeita: um bonito marido beijando-a no dia do casamento, a filha de poucos meses, linda, rosada, risonha, perfeita, no porta-retrato provençal. Teve vontade de desmaiar, de ver se não tinha resto de comida no dente, ficou com vergonha da pele que há tempos não via uma limpeza. E foi a primeira coisa que o ser de luz reparou.

- Antes de tudo, precisamos fazer uma limpezinha nessa pele, Flávia.

Não, não. E ainda por cima essa voz em tom baixo, calmo, embalante. Lembrou que todas as dermatologistas que conheceu falavam assim, baixinho, com delicadeza, com palavras doces que só faziam com que ela ficasse ainda mais arrasada. Jamais seria tão linda, leve e iluminada. Jamais.

Pegou a receita, deu um sorriso amarelo misturado com um muito obrigado, prometeu o impossível, que voltaria em dois meses, que faria a tal limpeza, que passaria o ácido todas as noites. Saiu do consultório e foi direto para o poço novamente.

27.5.09

Propaganda



- Tá tenso.

- Hein?
- Tá tenso. Com a Gabi.
- Quem é Gabi?
- Minha namorada. Aquela moreninha, cabelo curto. Não lembra? A que vem me buscar de vez em quando.
- Uma muito gata? Com uma pintinha aqui do lado do nariz? Assim, com todo respeito.

- Ela mesma. Anda reclamando demais. Cada dia é uma pendenga. Agora deu pra dizer que eu tenho um gosto muito duvidoso pra filmes.

- Sei como é. Ela gosta de comédia romântica e quer que você veja tudo que a Meg Ryan já fez.

- Não, não. O problema é o seguinte. Eu gosto de Rambo, de Velozes e Furiosos, de tiro, de briga, de fratura exposta. Senão eu durmo no cinema. E ela gosta de uns filmes que nem no shopping passam. Outro dia me forçou a ver um tal de brilho da mente de lembranças.
- Brilho eterno de uma mente sem lembranças.

- Esse mesmo.
- Do caralho... já vi sei lá, umas cinco vezes.
- Sério que você gostou? Eu achei uma mentirada só. Apagar memória? Isso nem existe, ridículo.

- E o Rambo existe desde quando?

- Ah, mas é diferente.

- Sei.

- Tudo bem, ela sempre vai comigo ver os filmes que gosto. Mas eu não aguento acompanhar ela nessas merdas.

- Pô, mas aí você não tá sendo justo.

- Ah, mas eu já aturo o gosto musical dela. Ela me faz ouvir cada coisa. Olha só, gravou esse monte de cd pra eu conhecer as coisas que ela gosta.

- Poxa, que coisa mais.... carinhosa. Ela fez até capa e encarte.

- Ó, nem tinha visto. Se quiser pode pegar pra você. Esse que tem Beatles, Rolling Stones, David Bowie, pode levar tudo. Não sou museu pra gostar de velharia.

- Rapaz, fala isso não.

- Eu acho que ela ouve umas coisas diferentes só pra dizer que é moderna, sabe como? Tem que ver os lugares que ela gosta. Dá cada figura.

- Uma vez encontrei vocês numa balada dessas, lembra?

- Puta... foi. Show do Radio-alguma-coisa.
- Radiohead. Ela gosta?
- Porra, se ela pudesse acompanhava a turnê.
- Eu também.

- Tá doido. Eu não aguento guitarra. Nem gente berrando. Eu prefiro uma coisa mais eletrônica.
- Então gostou do Kraftwerk?
- Cruzes, nem fudendo. Uns puta caras esquisitos. Prefiro um trance, uma rave. Esse papel kraft aí é sei lá, meio parado. A Gabi que gosta.

- É, vocês têm que entrar num acordo então. Um cede aqui, o outro ali.
- A gente saiu ontem pra trocar uma ideia. Ela disse que ia me levar pra jantar.

- Pô, bacana a iniciativa.

- Mas foi uma merda. Ela me levou pra um restaurante tailandês.

- Porra, me amarro.

- Fala sério. Eu caguei fogo hoje, de tanta pimenta naquele frango.
- Ah, então o cheirão no banheiro...
- É, fui eu. Culpa daquele frango do inferno. Em vez de a gente se acertar, ficamos lá, cuspindo fogo.

- Me diz uma coisa. Assim, vou perguntar na boa.

- Vai lá.

- Por que vocês estão juntos? A coisa melhora quando... enfim, o sexo é bom?

- Pra ser bem sincero, já foi melhor. Ela andou... chega mais perto... ela andou inventando umas histórias meio loucas. Comprou peruca,
se fantasiou. Pediu pra eu fingir que era o Dr. Pinto, um ginecologista tarado, depois que era um alienígena que ia fazer um exame de fertilidade nela... porra, ainda comprou um vibrador no formato do dedo do ET.
- Que beleza....

- Oi?

- Não, nada. Que garota...assim, criativa, né?

- Demais, demais. Aquela ali parece que fica pinicando, se ardendo toda. Deve ser de tanta pimenta tailandesa. Agora falando isso tudo com você, me veio uma coisa na cabeça.
- Manda.
- E se você conversar com ela? Se disser que eu sou foda aqui no escritório, que sou respeitado, que tenho um futuro promissor, que a mulherada cai matando, mas eu saio pela beirola.

- Saquei. Você quer que eu minta?

- Isso. Ó. Ela vem me buscar hoje. Você desce, puxa papo falando dessas bandas ruins que vocês gostam, desses filmes com mais diálogo que porrada, depois você fala de mim e aí vai, deixa fluir.

- Porra, cara, tô achando que isso não vai dar certo. Vai dar merda.

- Acha que ela vai sacar a armação?

- Não é bem isso que eu tinha pensando.

- Hein?

- Nada não, tô pensando alto.

- Cara, ela nem vai sacar nada.

- Você gosta mesmo dela? Você ama ela?

- Nunca pensei nisso.

- Nunca pensou? Como assim? Então pra que esse esforço todo?

- Ah, sei lá, eu curto ela. E não tô fazendo nada melhor. Mas não conta pra ela.
- Nada de amor, então?
- Não.
- Certeza?
- É.

- Beleza. Tô dentro. Que horas ela chega?

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24.4.09

Ser homem

- Você é homem ou o quê?
O grito desafiador veio acompanhado de vaias e mais provocações, que
apenas a intervenção da diretora conseguiu calar.
Duda não respondeu o ruivinho encapetado, que de outros anos já
tentava tirá-lo do sério. Mas também não se mostrou de todo
amedrontado. Manteve a cabeça erguida, o maxilar tenso, com a mordida
forte e o punho cerrado. Não correu, não olhou para baixo nem para os
lados. Esperou que a agressão verbal se tornasse física, mas isso não
aconteceu.

A chegada de Dona Elvira acalmou os ânimos.
- Duda, não caia na besteira de comprar briga com o Eric. Você é um
menino direito, suas notas são uma maravilha.
- Eu não falei nada, Dona Elvira. Eu só fiz um gol, só. E ele, ele
disse se eu era homem ou quê. Quis me bater.
- Passou. Volta pra aula que o sinal já bateu, vai, se apresse.

A aula acabou, mas Duda não tirava a história da cabeça. Em casa, a
empregada, dona Marli, notou a aflição do menino, que tentava, mas não
se concentrava em nada. Sentou na frente da TV, mudou de canal várias
vezes até desligar de vez o aparelho. Tentou jogar playstation. Na
primeira derrota, desistiu. Foi beliscar um pouco do bolo de laranja,
depois tentou novamente ligar a TV. Devagar, ela foi chegando perto,
fingindo que passava um pano aqui e ali.

- Duda, levanta o pé por favor, pra eu limpar a poeira do tapete?
- Tá.
- Você tá bem?
- Um menino quis brigar comigo hoje. O Eric. Ficou berrando na frente
de todo mundo que meu gol não valeu, que eu sou pereba, que nem devia
estar jogando com a 7ª série, porque sou da 5ª.
- Não dá ouvidos, Duda.
- O que quer dizer você é homem ou o quê?
- Ele disse isso pra você?
- Disse sim. Ele acha que eu sou bicha, Marli?
- Não, Duda, nada disso. Ele quis dizer assim: você é homem ou você
não quer brigar? Você vai ser machão ou vai fugir? Mas você foi
esperto, aposto.
- Não fui... eu fiquei quieto, nem reagi.
- Então. Você foi esperto. Burro ia ser se caísse no conto dele.

Com medo de um novo confronto, Duda largou o futebol pra lá por duas
semanas. Mas a pergunta não largou ele. Era homem ou quê, homem ou o
quê? Sabia pouco da vida. Sabia por exemplo que não queria brigar, que
achava essa ideia ridícula e que apanharia feio se topasse a rinha.
Não se sentia de todo covarde, porque já havia brigado antes. Mas por
um motivo diferente. Primeiro quando uma menina tentou roubar o lugar
de uma garotinha na fila do escorregador. Ele foi defendê-la e tomou
um soco. Mas devolveu o gesto com um empurrão que fez a fila
aplaudi-lo e os pais intervirem. Depois, quando viu um garoto
maltratando um gatinho. Nem chegaram a ter um diálogo. Duda partiu pra
cima sem pensar duas vezes.

Isso tudo fazia ele pensar que não era um cagão. Pensou em conversar
com o pai, mas não imaginava que reação ele teria. Será que sentiria
orgulho ou se decepcionaria? Os dias se passaram, mas a reflexão
imatura e crua sobre masculinidade percorria tudo que Duda pensava e
fazia. Será que usar vermelho é coisa de homem ou o quê? Gostar da
menina da 5ª B, mas não se declarar era ser homem ou o quê? Ficar
emocionado quando vê um filme que gosta muito é ser homem ou o quê?

Até que um dia, ele resolveu tudo. Acordou inspirado e mais seguro de
quem realmente era, na medida em que alguém pode se conhecer aos 10
anos. Procurou Eric na hora do recreio, parou na sua frente, fez cara
de mau e disse:
- Eu sou o quê.
Eric não entendeu patavinas. Mas Duda sim, entendeu que nem sempre ser
homem é uma coisa tão idiota quanto fazem parecer.

ilustra de galvão em www.vidabesta.com

29.3.09

Sem motivos


- Por que você chora tanto?
- O quê?
- Acho que você chora muito, banaliza o choro.

Eles voltavam do fim de semana, ela no banco do carona, o rosto encostado no vidro tentando ver a paisagem verde que corria ao lado. Ficou pensando no que ele falou. Não tinha uma resposta, o choro simplesmente fazia parte dela. Mas teve medo.

- Você é engraçada. Chora com arte e com porcaria. Lembra do tanto que você chorou na exposição da Camille Claudel? Olhei pra você e só vi um rosto borrado. Você lá, mais parada que as esculturas. Dura que nem todo aquele bronze.
- Você sabe que a história dela me emociona. Por que esse assunto agora? Meu choro incomoda você?
- Não, mas me intriga. Porque chorar com uma exposição de arte acho que até consigo entender. Me emocionei com as fotos do Sebastião Salgado também, aquele monte de criança com olhar triste. Aquilo dói.
- É, eu chorei também...
- Isso eu entendo. Mas você também chora vendo comercial de celular. Chora vendo aquele reality ridículo de modelos. Tenha dó, né?

Não iria adiantar se defender, ele tem razão, em certo ponto. Mas o que poderia fazer? Sempre foi assim, desde criança. Também sentia vergonha das lágrimas bestas que algumas coisas provocavam. Uma música, uma lembrança, uma cena na rua. Achava cansativo ter que explicar o porquê, sentia que o choro era tão espontâneo quanto a sua risada, que também era fácil. Mas estava apreensiva.

- Você não acha que o riso e o choro são dois lados da mesma moeda?
- Nunca pensei assim. Mas quando você chora, por qualquer coisa, me sinto culpado.
- E falando assim eu que vou me sentir culpada daqui pra frente cada vez que eu deixar uma lágrima cair. Por favor, não me venha com essa. Me deixe chorar em paz. Esse assunto tá ficando um pouquinho pesado, você não acha? Daqui a pouco a gente começa a desenterrar coisas do tempo do bondinho. Aí sim, vou chorar com vontade.
- A gente nunca vai superar...
- Fábio, você quer realmente falar disso?
- Não, não. E o livro, você terminou de ler?
- Quase, é meio triste, achei melhor dar um tempo.
- Mariana, quer saber a verdade? Acho que você procura coisas pra se entristecer. Pronto, falei. É filme, é livro, é exposição. Você não assiste comédias, não participa de nada divertido, fica aí nessa introspecção, parece que gosta de sofrer. Não vejo você rindo, tá sempre calada, quieta, não sei mais o que se passa pela sua cabeça.

Ela não tinha forças pra retrucar. Sentia-se como um vulcão, longe de ser no sentido erótico que o termo pode provocar. Era um outro vulcão, mais aborrecido, mais angustiado, mais denso. É lógico que ela não tinha mais toda aquela leveza de antes. Era como se ela precisasse dissolver toda a dor que sentia. Mas achou melhor se calar e continuar olhando a paisagem, adorava ver bois na grama. Lembrou-se de quando atravessaram juntos uma fazenda de búfalos, bichos enormes dentro d’água, rira de seus chifres que pareciam um corte chanel.


- Lembra-se de quando fomos pra Bahia e passamos dentro daquela fazenda de búfalos?
- Lembro, você ficou cheia de medo.
- Claro, imagina se aqueles búfalos se zangassem? A gente iria ser pisoteado, com carro e tudo.
- Mari, búfalos são animais dóceis. É por isso que a estrada passa no meio da fazenda, porque eles não são perigosos.
- Eles me fazem lembrar da Luana, o cabelo dela parece o chifre deles. E ela também não tem uma carinha muito bonita.

Ela começou a rir da sua comparação. Um riso leve. Ele gostou de ouvir e soltou um suspiro de alívio. Mas sabia que ela estava tentando de tudo para que não brigassem ou levantassem assuntos espinhosos. Achou melhor dar uma trégua também.

- Um dia toda essa vontade de chorar vai passar. Tenha paciência.

O choro não iria passar. Não tinha vontade de mudar nada. Admitia a fraqueza e passou a gostar cada dia mais dessa nova pessoa amuada, cinza. Estavam juntos há três anos, não teve coragem de contar todas as coisas que viveu pra ele. Sequer tinha coragem de pronunciar. O que havia acontecido entre eles serviu de motivo principal pra que ela pudesse desaguar suas angústias. Já estava assim há dois verões. Não queria mais mudar.

A estrada era cheia de curvas, de um lado montanha, do outro lado, um vale. Ele dirigia bem, era uma cara centrado. Ouviam agora Body & Soul, um dia ele disse que essa música era tão perfeita quanto ela. Não conseguia acreditar, nisso e em nada mais. Soltou o cinto de segurança, abriu a porta do carro e deixou o corpo cair. Desceu mais de dois quilômetros, o corpo rolando numa velocidade cada vez maior. Enquanto teve consciência, deixou os pensamentos virem. O pai que se matou porque se afundou em dívidas por ter outra família, o tio que a molestou quando tinha apenas dez anos, a mãe que se fechou num mundo próprio, o fracasso de não trabalhar naquilo que gostava, a tentativa frustrada de ser mãe e não poder, a mulher que o Fábio engravidou, o filho que ele tinha e ela não. Tinha motivos demais para chorar. Mas se cansou de todos eles.


11.3.09

Saudade


Estava arrasado, completamente arrasado. O que seria de sua vida sem ela? Fazia menos de uma hora que a porta do seu apartamento havia sido violentamente batida. Mas parecia que já durava um mês. Ficou ali olhando para o teto, sem conseguir chorar, pensando em tanta coisa que não conseguia se concentrar em nada. Lembrava e relembrava fatos, frases, cenas, sempre tentando desesperadamente se apegar ao que agora não existia mais.

Sentiu o estômago se retorcer e achou que enfim choraria. Era só fome. Levantou da cama e, assim que encostou os pés no chão, viu o chinelo dela pousado inocente ao lado do seu. Temendo gritar, fechou bem os olhos para conter a dor dentro do corpo.
- Comprei um chinelo pra você. Reparei que anda descalça e fica com o pé todo sujo antes de ir embora - ele ainda se lembrava do dia em que falou isso pra ela, enquanto viam algum comercial em algum canal qualquer. Pra ela foi uma declaração. Sentiu que ele se preocupava, que reparava, que a relação havia atingido um novo patamar. Ah, mas foda-se. Já não importava.

Chutou o chinelo para baixo da cama e seguiu seu rumo. Parou antes no banheiro. A casa não tinha cheiro bom antes dela comprar aquele spray com perfume de qualquer coisa do mato, numa loja chique, e espalhar nas toalhas e lençóis. E ele fingia que nem via, pra manter a pose de desencanado. Levantou a tampa da privada para fazer xixi e se deu conta de que não precisava mais disso. Voltou atrás e mirou os pingos finais no assento. Entrou no box e sentiu um arrepio quando viu a calcinha pendurada na torneira. Sabia que estava a um palmo de sentir mais uma vez o cheiro dela. Achou melhor não. Pra quê? Mas pegou. E deu uma profunda fungada… como fedia. Não sabia se era a mistura com o sabonete ou se ela havia usado água sanitária, mas tinha alguma coisa errada ali. Se arrependeu de seu ato e jogou a calcinha no lixo.

Saiu do banho e jogou a toalha molhada em cima da cama. Domesticado que andava, tentou reverter o movimento, puxando a toalha de volta. Mas logo percebeu que não precisava mais se preocupar. E sorriu.

Andou peladão mesmo até a cozinha. Imagine se ela não daria um escândalo? Abriu a geladeira e foi tirando a alface, o tomate e as cenouras para fazer a salada que ela ensinou. Pegou a mostarda, a páprica, a sálvia, temperos preferidos dela que, em pouco tempo, se tornaram também dele... ou não. Na verdade, pensou, comia porque ela cozinhava mesmo e pronto. Guardou tudo de novo na geladeira e voltou às suas raízes. Pegou miojo, gorgonzola, fritou um baconzinho e partiu para o sofá, coisa que ela odiava, com seu prato fundo, que ela abominava, para comer tudo acompanhado de uma Colorado Indica bem gelada, que ela não tomava.

Ligou a TV, que estava programada para ligar no canal que ela gostava, trocou para um seriado policial que ele adorava e se perguntou por que não o assistia mais. Era ridículo saber que a Flora tinha terminado presa e não ter idéia de como andava House. Sorriu novamente quando percebeu que sentia muito mais saudade dele mesmo do que dela. “Acho que devia ter sido menos frouxo... quase me anulei deixando tantas coisas que gostava para trás." E isso foi tudo que conseguiu racionalizar e tirar de lição sobre o fim do namoro. Abriu a cerveja, devorou o miojo e dormiu antes mesmo de o seriado terminar. Sem escovar os dentes.

ilustração do galvão em www.vidabesta.com

18.2.09

Não me pergunte

A vida vai muito bem até o momento que você decide fazer perguntas. Por que estou nesse emprego? Por que aceitei me casar? Por que engravidei? E daí piora quando você começa a pensar no que vai ser daqui a cinco ou dez anos. Me fizeram essa maldita pergunta um dia: você sabe onde vai estar daqui a cinco anos? Quase mandei se foder. Não, não sei. Meu irmão morreu aos vinte anos. Não teve tempo de pensar nisso. Aliás, tenho muita vontade de xingá-lo, às vezes. Se livrou de se tornar adulto, de pagar contas, de declarar imposto de renda, de criar filhos, de ter que ver seus pais envelhecerem e se preocupar com quem vai tomar conta deles.

Ele não teve tempo de ter uma depressão e não sucumbir. Não teve tempo de ver o mundo mudar com o 11 de setembro. Não viu o Lula fazer todas as besteiras que tem feito. Tenho sentido inveja dele. Porque estou tendo muita preguiça de pensar no futuro. E não quero dizer que prefiro viver o presente. Também não tenho gostado dos dias atuais. E o passado, nada demais para ser contabilizado.

- Você reclama de barriga cheia.

Adoro essa frase. Ela separa os medíocres dos sonhadores. Ela determina o perfil dos conformados e confronta os questionadores. Quem vai mudar alguma coisa nesse mundo se não parar para perguntar o porquê das coisas? Portanto, fico desse lado. Do lado dos que reclamam. Por que sei que sou capaz de reclamar e de fazer também. Questionar é só deixar de aceitar as coisas como elas aparecem.

Quero o conforto. Quero a conta recheada de dinheiro. Definitivamente, dinheiro me traz muita paz. Fico muito feliz com muito dinheiro. Uma coisa depende da outra, claramente. E ter muito dinheiro não me traria para o ponto onde estou. De ficar com esses questionamentos estúpidos sobre como será minha vida em 2013.

Tenho pensado na velhice com uma certa frequência. Os velhos com os quais convivo me dão nervoso e não quero ficar como eles. Tenho uma vida não convencional – não me casei oficialmente, mas tive dois relacionamentos longos, não batizei meu filho, não almoço aos domingos na casa dos meus pais. Fico bastante tempo longe da minha família - minha paciência se esgota na primeira hora, justo quando sentamos à mesa e alguém teima em falar mal de alguma cunhada ou sobrinha. Meu fígado não suporta mais tais chateações. Prefiro ficar à distância, com meus livros e revistas me fazendo companhia.

Livros não me perguntam nada, pelo contrário, me jogam na cara as melhores verdades. É isso que quero. Quero endurecer emocionalmente. Não quero me sentir vítima de nada nem de ninguém. Não quero ter autocompaixão. Quero sobreviver sem enlouquecer. Pelos próximos cinco anos.

Ilustração do Galvão.

11.2.09

amor?


Havia algo errado. Já tinha passado dos 27, vivido um bocado de namoros, casos, enrolações. E por mais diferente que uma história fosse da outra, havia um padrão na forma de agir, no jeito como as coisas acabavam ou começavam. O mesmo sentimento de coisa mal resolvida, um déjá vu de atitudes. Na tentativa de entender o motivo dessa repetição patética, fechou os olhos e resgatou lembranças picadas e mofadas dos seus primeiros relacionamentos.


Ele era o mais bonito da turma. E ela, bem, ela não era. Mas foi
escolhida. E como a menina não tão bonita nem tão popular poderia desprezar o objeto de desejo do colégio? A falta de amor era compensada pela fama rapidamente adquirida. Desfilar com ele pelos corredores e ser alvo de olhares cortantes era o máximo aos 17 anos. Ele gostava dela, gostava mesmo. Deixava bombom na mesa, escondia bilhetes na mochila, ficava tímido quando ela olhava bem firme nos olhos. Dizia que ela era diferente de todas porque não gostava de Capricho, não fazia escova nem escutava New Kids on the Block.

Só que a menina gostava mesmo do esquisito da Exatas. Não conversava
direito com ninguém, matava educação física pra ler na biblioteca e ostentava uma barba rala e mal feita. Passou a esbarrar nada acidentalmente com ele no ponto de ônibus e pegou uma matéria extra na turma de inglês que cursava. E um dia, coitadinha, um dia perdeu a aula e foi à casa dele buscar as anotações. Era decidida, determinada. E safada também. Com 18 anos, sabia que mulheres, quando querem, conseguem as coisas assim. Chegou à casa dele com seu batom cor de boca, pra fingir que não estava maquiada, e a bochecha coradinha depois de tapinhas leves. Assim que ele abriu a porta, fez cara de doente e, antes que ele pudesse dizer qualquer coisa, fingiu um quase desmaio. Pronto. Duas semanas foram o suficiente pra beijar o misterioso. E dez segundos o suficiente para a graça sumir. Sentiu nojo. Na hora achou que fosse da barba. Ou da baba. Empurrou ele, pediu desculpas e saiu correndo.

Chorou horrores no caminho de casa. Sentia culpa, pena no namoradinho
bonito e uma sensação esquisita. Se estava indo atrás do que queria, por que diabos tinha sido tão ruim? A crise de consciência deu febre, dor de barriga, de estômago. Depois dessa achou que tinha aprendido uma lição. Mas não sabia qual. De repente que trair fazia mal ao estômago. Ou que deus castiga quem mente. Mas nada que realmente pudesse ensinar algo como ser humano. Pensou que o tempo e outras experiências acabariam esclarecendo esses episódios.

Dez anos depois lá está ela, novamente perdendo o sono.
Ele é fotógrafo. Magro, alto, ombros peludos. Cabelos crespos e ralos, pele grossa e melada. Está longe de ser a primeira imagem que gostaria de ver assim que abre os olhos pela manhã. Mas ele é fotógrafo. Ele vê tudo de um jeito poético. Enxerga beleza em ângulos tortos. Repara naquele pedaço de corpo que só você vê que é tão bonito. E descobre outros que você desprezava.

Sei por que ela sonha tanto com ele. Por que passa a mão nos cabelos, encolhe a barriga e força a lordose assim que ele passa. Sei tudo. Não é vontade de dar, de estar junto. Não é romance, não é vontade de compartilhar uma história, uma vida, de preparar um café da manhã na cama. É querer ser a musa, a inspiração. A que faz ele querer trabalhar feliz. Aquela para quem ele agradece quando ganha um prêmio. A dedicatória do livro. O tema da melhor exposição da carreira dele. E talvez ela vá atrás. Talvez use a mesma tática que usou quando era uma menina. Bata à porta com uma desculpa besta, finja que é frágil e viva uma história.

Depois de pensar, pensar e pensar ela veio pedir minha opinião.

- Vai ver não nasci pra amar, sei lá.

- Vai ver que isso que você anda procurando não é amor.

- Eu quero um cara que babe por mim, só isso. Que nem cachorro
raivoso. Isso me dá segurança, sabe? Eu sei que parece carência mal direcionada, mas foda-se.
- Então desencana. Esquece amor. Fica todo mundo procurando amor, amor, amor e nem sabe direito o que quer. Pelo menos agora você sabe: quer ter o ego massageado o tempo todo.
- Sou uma vaca por causa disso?

- Não. É só uma frustrada a menos no mundo.


ilustração em vidabesta.com

28.1.09

Puta sorte

Se apaixonaram em condições adversas: ele tinha acabado de furar o pneu em frente ao prédio cinza e preto no fim da rua, onde manobrava todos os dias antes de ir pro trabalho. Ela vinha caminhando, olhando para o chão. Chegava trazendo o pão e o jornal. Um pedaço da baguete ainda quente já havia sido devorado enquanto ela andava. E antes de subir, precisou rir da situação que acabou de ver: ele agachado, um pedaço das costas e outro da bunda aparecendo, xingava o pneu.

- Que merda!

Caiu sentado no chão depois de ver a chave escapulir da porca. Era a primeira vez que precisava trocar um pneu. Ela se aproximou com voz rouca e doce perguntando se ele queria ajuda. O carro ficou ali mesmo e o pneu continuou furado. Mas minutos mais tarde eles estavam na cozinha do apartamento dela tomando café e falando sobre a vida. Continuaram a conversa no quarto. Na sala. No corredor. De novo no quarto. No dia seguinte, foi demitido por não ter comunicado que iria faltar.

Ele nunca havia se apaixonado com tanta intensidade. O que está acontecendo era a pergunta que se fazia todos os dias enquanto escovava os dentes se olhando no espelho.
Arrumou um novo emprego depois de três meses. Iria ganhar menos, mas finalmente a angústia terminaria. “Pelo menos tenho alguém do meu lado que me ama.” E o amor dos dois ficava cada vez mais forte. E os contratempos, cada vez mais frequentes. Ele se sentia constrangido com tantas faltas de sorte e dizia que isso nunca tinha acontecido antes. Ela ficava ao lado tentando consolá-lo. Difícil era arrumar o que dizer depois de cada experiência trágica: um assalto, uma briga de rua que acabava sobrando porque ele passava naquele momento, um tropeção, a batida na pilastra do estacionamento, o café que caía na camisa na hora da reunião, os esquecimentos do celular, da carteira, do guarda-chuva.

- Amor, você sempre foi assim, sem sorte?
- Não, nunca...de um tempo pra cá que isso começou.

Estavam perto de fazer seis meses de namoro e ela sugeriu um restaurante novo, com poucos lugares, que dava pra ir a pé. Antes de a sobremesa chegar, ela estava ao telefone pedindo socorro ao paramédicos. Ele, no chão do restaurante, se contorcia de dor. O diagnóstico veio algumas horas depois: apendicite.

Verdade seja dita: era um cara bem-humorado e otimista. Desses que acordam sorrindo e dão bom-dia no elevador. Mas com tanta falta de sorte, não conseguia mais achar graça de nada. Começou a se questionar o porquê de viver. Não gostava do trabalho. Deixou de gostar da cidade onde vivia. E o pior, começou a gostar menos dela. Vou terminar com tudo, pensou.

- Chega.

Marchou até a casa dela, pisou num cocô de cachorro e na mesma hora viu que ela estava na janela. Mas não houve tempo para conversa. Um vaso de planta que ficava no parapeito da cobertura, no décimo quinto andar, acertou a cabeça dele causando traumatismo craniano e morte instantânea.

Mas é importante dizer os fatos como realmente aconteceram. Ao vê-la na janela, olhando pra ele, começou a pensar se realmente conseguiria terminar. Adorava aquela menina. Enquanto pensava, o vento movia o vaso de planta, que quase na ponta do parapeito, chegou a parar de balançar por alguns instantes. Ele decidiu então que não terminaria. Nessa hora, o vento decidiu soprar mais forte.

12.1.09

Sustento


Jacira tinha um talento. Era a melhor vendedora de sutiãs do bairro. Quiçá do mundo. Via, diariamente, peitinhos de tudo que é tipo e sempre sabia qual sutiã faria o milagre de levantar aqueles mais jururus. Mas algo a atormentava. Sua religião, rígida e conservadora, a deixava confusa quanto à dignidade de seu ofício. Por que deus foi dar um dom tão estranho pra ela?

Defendia a castidade, achava que mulheres deviam viver pelo marido, entendia que homens fazem besteiras porque são homens. Mas quando entrava na loja, pedia perdão após cada venda. Principalmente as más intencionadas, no ponto de vista dela, claro.

Dava de tudo na loja. As sem-peito querendo um engana-bofe, cheio de enchimento. As M, as vesgas, os peitocos com formato de escorregador, os bem redondos, os murchos, os que invadiam a área do sovaco, os que davam oi pro umbigo e os falsos, que davam oi pro queixo. E por mais que olhar tetas alheias não fosse um passatempo legal, ela entendia da coisa. As clientes saíam sempre satisfeitas, seguras e empinadinhas. Ainda que pura enganação.

- Moça, preciso de um sutiã bem sexy, pra uma ocasião especial.
- Aniversário de casamento?
- É, mais ou menos. Pra comemorar.

Ela coçou a orelha, desconfiada. Sentiu cheiro de Pinho Sol ali. Aquela era puta na certa. Ofereceu um conjunto completinho, com corpete, cinta-liga, tudo rendado, pequeno, enfiado.

- O que acha desse?
- Nooooossa, é isso mesmo.

Mais uma mulher feliz saía da loja, pronta pra esquecer as celulites, estrias e assumir o posto da mais gostosa do mundo. Ao menos no quarto onde estivesse. E Jacira corria para os fundos, pedia perdão, rezava tudo que sabia e voltava ao trabalho, pensando que precisava de dinheiro para completar o enxoval pra casar com Murilo.

Nesse dia mesmo, ela recebeu uma visita.

- Oi, Jacira, lembra de mim?
- Claro, claro. Dona Celeste. Tudo bem?
- Tudo ótimo, Jacira. Lembra que vim aqui comprar um sutiã pra reconquistar meu marido?
- Sim, se lembro. Me conta, como foi?
- Foi um sucesso.
- Ele gostou foi?
- Nada, aquele bosta nem reparou. Pra mim foi a gota d’água. Terminei tudo.
- Sangue de Jesus tem poder!
 - Pois é. Larguei meu marido, estou muito feliz.
- A culpa foi minha...
- Culpa nada, Jacira. O mérito é teu. Aquele sutiã levantou mais que esses peitinhos aqui. Levantou minha moral, empinou até meu nariz. Cansei de ficar querendo agradar homem. E justamente quando pensei em mim, quando vi que posso me cuidar, que sou sim uma mulher bonita, me aparece o Dório.
- Dório? – a voz de Jacira mal saía.
- Um vizinho meu. Não aconteceu nada não. Mas acho que vai. Tem um clima rolando, sabe? Mas nem tô esquentando demais. Tô deixando acontecer, sabe como? Voltei a malhar, a ir ao cinema, a sair com meus amigos.
- É, vendo assim não parece tão ruim.
- Que ruim que nada, mulher. Ó. Vim pra agradecer e dizer que te indiquei pra tudo quanto é amiga.
- Ah, muito obrigada.

Era informação demais para Jacira. Deus não ia deixar essa passar. Alguma coisa ruim iria castigá-la. Em vez de esperar a vingança nos céus cair sobre sua cabeça, ela mesma providenciou uma penitência. Se absteve de comer doces, sua paixão, sua fuga para a falta de sexo, até o casamento. Mal sabia que isso seria o começo do fim.

Sem doces, Jacira começou a ficar triste, irritada. Passou a brigar com Murilo à toa. O trabalho rendeu menos. Um dia chegou a chamar o motorista do ônibus de burro. Precisou tomar uma decisão radical. Largou o emprego, se casou logo e abriu um negócio do lado da igreja. Deu à loja o nome de Levantai. Continuaria vendendo sutiãs, mas agora, apenas para mulher casada.

O negócio foi um sucesso. As discípulas de seu templo adoraram a idéia e viraram clientes assíduas após os cultos. Quem não resistiu à descoberta da feminilidade e da sexualidade das mulheres foi a igreja. Fechou em três meses.

ilustração em vidabesta.com

23.12.08

Balanço

A época é essa, boa hora para se fazer um balanço. Demorei a entender o que isso significava, de ver o ano como se fosse a análise do livro-caixa de uma empresa. De um lado o que entrou, do outro o que saiu. E no fim das contas, se foi positivo ou negativo. Caneta vermelha ou azul. Suponho que seja mais fácil fazer isso com números do que com emoções, conquistas e sentimentos. Ninguém fica contabilizando quantos amigos ganhou no ano que se finda e nem quantos pretende conseguir no que se aproxima. Mas, ainda assim, resolvi colocar 2008 na ponta do lápis.

Comecei o ano me separando, depois de doze anos de convivência. E a conta foi alta, no bolso e no coração. Mas agora, faltando poucos dias para começar 2009 no calendário cristão, realmente foi uma decisão acertada. As coisas se ajeitam com boa vontade. Pra suprir o que ficou menor no orçamento, levei à frente um projeto que há tempos estava adormecido na minha cabeça. Contei a idéia para dois malucos que me apoiaram e fizeram dar certo, ou seja, a grana entrou. E como diz o Lobão, o riso corre frouxo quando a grana corre solta. O coração também vai bem, obrigada. Mais sossegado, apaixonado por várias coisas, aberto e disponível para amar novamente.

Mas não se deixe levar pela aparência, nada foi fácil. Fiquei muitos domingos sem me levantar da cama. E muitos outros em que tentei e não tive força suficiente. E outros tantos em que só não sucumbi porque tinha gente do meu lado pra me agüentar chorando – que nem manteiga derretida, como diz meu pai. Continuando o dramalhão, no meio do ano, outro golpe que doeu bonito. Eu e Val, a outra redatora de merda, agora estamos separadas por uma hora e meia de avião ou quinze horas de ônibus - algumas a menos de carro, mas não me arriscaria dirigir em São Paulo. O dinheiro também nos separa, companhias aéreas não dão desconto, não sabem o que é ter amigos longe. Tá uma droga ficar longe da Val, mas é assim e pronto. Vamos em frente.

Em 2008, voltei pro tae know do. E consegui mais uma graduação. Em 2008 também comprei meu primeiro carro zero. Em 2008, vi o Escafandro e a Borboleta e me deu uma puta vontade de fazer um trabalho voluntário: ler para cegos. Em 2008 conheci alguém com disposição de vir de Pernambuco ao Espírito Santo de bicicleta. Em 2008, tomei um porre inesquecível – principalmente por não lembrar de quase nada. Posso dizer com toda a certeza: 2008 foi difícil pra cacete. E, na mesma medida, foi um grande ano. Feliz 2009 pra você.

Ilustração de Claudio França.

14.12.08

Alceu



Era difícil de acontecer, porque ele odiava quando acontecia. Mas sim, chegou atrasado ao cinema. Atrapalhado entre pegar a carteira, falar com a mocinha da bilheteria, segurar o milk-shake de quase mil calorias e umas coisas boas crocantes dentro, ele pediu:
- Queime depois de ler, sessão das nove.

Entrou na sala correndo e viu alguns lugares vazios no meio das carinhas mal iluminadas pela tela. Foi examinando uma a uma com cuidado para escolher um vizinho perfeito: um com cara de mudo. Durante a busca, viu uma silhueta interessante. Ficou concentrado esperando um flash de luz branca sair da tela pra acender o rosto.
- Puta merda, falou sem conter a boa impressão.

Em vez de se sentar, ficou ali com uma tremenda cara de besta que, por sorte, a escuridão escondia. Ela estava sozinha, na terceira fileira de trás pra frente, na poltrona bem do meio. De um lado, um casal, uma cadeira vazia e ela. Do outro, um rapaz solteiro, um espaço e ela. Não era possível que ela estivesse sozinha.
- Ô, meu filho, tu não é transparente não.
Precisou do grito pra se dar conta que estava em pé fazia mais de um minuto, encarando a menina. Sentou ali mesmo, na poltrona do canto da fila e continuou analisando a situação. Ela tinha lábios grossos, mas nada exagerado, um nariz levemente batatinha que combinava com um queixo proeminente e uma estrutura óssea perfeita do rosto.
- Estrutura óssea perfeita, repetiu baixinho.
Ah, se um amigo escutasse essa viadice.
Ficou intrigado com o fato de ninguém ter sentado ao lado dela. Será que cheirava mal? Vai ver tinha chiclete na cadeira vizinha. Mas eram duas vazias, uma de cada lado... ah, claro! Deviam ter bolsas ocupando as cadeiras. Ou de repente alguém derramou alguma coisa. Sorvete. Ou alguém limpou a mão cheia de gordura de batata-frita. Ou podia ter uma criança, claro. Mas a censura não permitia crianças ali. Um anão, isso, um anão. Que idéia imbecil.
Ele tinha que ir. Tinha que perder a vergonha que sentia quando passava na frente de uma fileira de pessoas, obrigando todos a dançar balé pra levantar as pernas e dar espaço. Fora que tinha pânico de ser atingido com pipoca babada, cuspe, ou um grito ofensivo qualquer. Começou a planejar cada passo. Como passaria por cada pessoa da fileira. Mas aí foi interrompido por uma voz.
- Dá licença?
Nem teve tempo de pensar. Um casal passou por ele, chegou até a silhueta ossuda, pediu que ela pulasse uma cadeira e se acomodou.
Pensou que era melhor assim. Pelo menos ia conseguir ver o filme.
Saindo de lá foi encontrar o Armando no Furinga.
- E o filme, bom?
- Foda. Mas perdi o começo.
- Chegou atrasado?
E contou tudo.
- Porra, bicho. Mas tu é uma besta mesmo. Vai ser racional assim na casa do caralho.
- Você me conhece, Armando. Eu estava planejando tudo.
- Planejando nada. Você estava é se cagando de medo.
- Mas você não sabe de tudo. Eu esperei ela na saída.
- Todo cagado?
- É sério, cara. Esperei e perguntei se ela gostou do filme.
- E ela?
- Disse que não.
- E você?
- Eu falei assim: foda-se.
- Foda-se? Foda-se? Você virou e disse foda-se?
- É, virei e disse. Porra, o filme era foda.
- Alceu, você é doente.
- Cara. Se a mulher não gostou de Queime depois de ler, não vai ser mulher pra mim.
- Tu é um medroso. Só uma inflável pra aguentar você. Aliás, tem um site legal aí se você quis...
- Ah, dá um tempo, Armando. Não é isso. Eu só acho que a coisa tem que ser perfeita pra acontecer.
- Deve ser por isso que nunca acontece nada bom na sua vida.
- O filme era bom.
- Você lia historinha da Disney quando era uma menininha? Porra, que papo de princesa. Eu fico pensando se você é um romântico imbecil ou um cara que pensa demais. Imbecil também. Tua vida é que nem a sessão de hoje. Você fica olhando o que tá acontecendo de bom em volta, lá do canto, deixando todo mundo passar por cima de você.
- Mas pense por um outro lado. Quando acaba a sessão sou o primeiro a sair.
- Peraí, peraí. Então você chega pensando na saída?
- Precaução.
- Ah, cara. Morre logo então. Ou então bebe, vai. Você fica legal quando enche a cara. Ô, Moreira. Traz uma dose daquelazinha pro Alceu.
- Ô, Moreira! E traz também o Engov. E uma água.

4.12.08

Dulce

- Vai passar o que hoje, Dona Júlia?

Era sexta-feira, no mesmo horário de sempre: pouquinho antes do almoço. Fazia as unhas religiosamente e mantinha o velho hábito de passar um vermelhinho. Só que de uns tempos pra cá, parece que os fabricantes de esmalte resolveram sacaneá-la. Estava solteira desde o início do ano, e sexta era o dia de “o que vou fazer hoje?”. A ansiedade começaria daqui a pouco, junto com o início da digestão. Iria perder a concentração pra preparar o relatório da semana e arrancaria alguns cabelos até o fim do expediente.

- Tem algum novo, Dulce?
- Tem, tem sim, ó, chegou esse, o Atração Fatal. Mas eu gosto mais é desse aqui, o Deixa Beijar.
- Não tem nenhum mais direto, Me Come Agora?
- Que isso, Dona Júlia.

Dulce era uma senhora com seus quase 50 anos. Bem, 50 anos hoje não é mais idade de senhora, na verdade. Susana Vieira que o diga. Elba Ramalho também. Mas Dulce ainda pertencia ao tempo em que as mulheres se tornavam senhoras lá pelos 40 anos. E há10, fazia as unhas da Júlia como ninguém. Era exímia tiradora de cutículas, lixava com perfeição matemática e passava o esmalte com tanta sabedoria que ele durava os seis dias sem estragar, mesmo depois de muita louça lavada. “É o jeito de puxar o pincel” – ela dizia, categórica. Se houvesse faculdade pra manicure, Dulce seria a primeira da turma.

- Então passa qualquer um aí, disse entre os dentes. Não, não. Me dá essa caixa aqui. Por favor.

Mulher com TPM, mulher sem fazer sexo, mulher sem dinheiro pra comprar a porcaria da sandália-gladiador, mulher sem tempo de pintar o cabelo: evite. Invariavelmente ela vai estar mal-humorada e louca pra achar um bode expiatório. No caso, a pobre da Dulce.

- Vê se isso é nome pra se colocar num esmalte: Beijo Molhado. Ninfa. E esse: Dama da Noite. Isso é eufemismo pra puta.

- Eu o quê?

- Por que quem cria esses nomes não faz coleções? Nomes de fruta, por exemplo. Ó que bonito esse aqui, Tâmara. Ou então, nome de gente. Nome de gente é legal. Já tem Gabriela, podiam fazer Lorena, Sofia, Bárbara. Bárbara tem até duplo sentido.

- Quer passar o Tâmara, Dona Júlia?

- Isso já é zoação com a minha cara. Desejo. E esse, Love. Amor profundo. Volúpia. Obsessão. Paixão. Loucura. É quase um texto. Um texto brega, diga-se de passagem.

A coitada da Dulce permanecia ali, sentada numa cadeirinha anatomicamente desenvolvida para o ofício de manicure, meio sem entender aquele ataque à caixa de esmaltes dela. Dulce organizava-os todos os dias. Os mais claros, os cintilantes, os estranhos (abóbora, verde, amarelo – odiava esses esmaltes), todos eram colocados criteriosamente, lado a lado, em ordem crescente: do mais claro para o mais escuro.

- Vou passar nada não, Dulce. Deixa só com a base. Tá ótimo assim.

Depois de se revoltar contra a caixa de esmaltes, começou a sentir a vergonha e um leve arrependimento subindo pelas pernas. Detestava essa sensação. Toda vez que soltava os cachorros por um motivo besta sentia em seguida uma azia desconfortante. Coitada da Dulce, ia gastar ainda mais tempo pra organizar aquele monte de vidrinhos coloridos. Iria ter que aumentar a gorjeta da coitada. Tirou duas notas de vinte que tinha acabado de sacar no caixa automático e entregou à manicure. Pediu desculpas pelo ataque, justificou que a culpa era dos homens que não sabiam amá-la, que não diziam o que ela queria ouvir, não falavam o quanto ela era especial e todas essas reclamações quem nem ela mesmo agüentava mais.

No fim da noite, Dulce chegou em casa diferente.

- Afonso?
- Fala, Dulce.
- É...bem...cê gosta de mim de verdade? É que andei pensando que você nunca falou pra mim que eu sou especial e essas coisas, você sabe...
- Como é que é?
- É que você nunca me disse coisas de amor, saber?
- Iihh, lá vem. Que foi, Dulce? Andou cheirando suas acetonas?
- Como você é grosso, Afonso. Só queria que você fosse romântico.
- Que história é essa agora? Que eu fiz de errado, mulher? Conversa mais besta...
- ...
- Ah, fui lá no centro e tirei a geladeira. Dividi no carnê. Chega na segunda.
- Verdade? Que beleza! Ó, passei lá no Geraldo e ele mandou esses torresmos pra você. Vou botar a janta.

28.11.08

TPM



redatorasdemerda.blogspot.com
O mau humor me acompanhava naqueles dias. Aqueles dias. Acordava comigo, dormia comigo, tomava banho, agredia desavisados, enchotava pombos na rua. Essas coisas normais.

Seguindo a regra universal, comecei o dia mal. Cheguei ao ponto atrasada e perdi o ônibus porque derramei café na roupa e, quando fui trocar, vi que todas camisas estavam amassadas. Mas tudo bem. Ouvindo uma musiquinha tudo melhoraria. Abri a bolsa para pegar o fone e escutar alguma coisa calma. O fone não estava lá. Deixei no bolso da blusa em que derramei café. Legal.

- Ô, mocinha! Dá aí um desses, por favor?, gritei para uma distribuinte de folhetos que passava.
Nem sabia do que se tratava, mas precisava de distração enquanto o sol rachava minha cabeça ao meio.

Meia hora depois, já ciente de todas as ofertas do Mundo dos Amortecedores, o ônibus passou. Lotado. Depois de ralar o braço num cara suado e desviar a bunda de um outro com carinha de tarado, lutei com uma gordinha cheia de sacolas para pegar um lugar vago. A gordinha ganhou. Aceitei a derrota como quem recebe um prato trocado no restaurante, mas fica com ele porque está morto de fome. Um ponto depois, a babaca se levanta. Sentou por um ponto. Ridícula. Mas dessa vez não tinha jeito, o lugar era meu. Assim que ela se levantou, fui encoxando a fofinha pelas costas, pra garantir que o primeiro vão entre ela e o banco seria minha entrada. Meu peito foi ficando esmagado entre as dobrinhas das costas dela e quase fui sugada pelo rego abissal da moçoila. Mas consegui. Me sentei aliviada e feliz. Finalmente a coisa estava melhorando. Peguei o folheto dos amortecedores e resolvi dar mais uma lida. Foi quando senti o pescoço da senhorinha sentada ao lado se esticando em minha direção, num estilo ET de ser. E não tem nada tão irritante quanto um desconhecido pescoçando sua leitura.

Segui tentando ignorar o fato, até que uma curva sinuosa jogou a senhorinha pra cima de mim. Baixei o folheto e olhei bem firme para ela. Nem desculpa ela pediu.
Inocente nesse mundo, achei que depois dessa, a senhora sairia fora. Não. Logo estava ela novamente invandindo meu espaco. Quando senti o queixo dela encostar em meu ombro, resolvi agir. Me concentrei e usei o tom de voz mais meigo que consigo fazer.
- A senhora quer ler esse folheto?
- Quero não.
- Pode ficar.
- Por que você tá me oferecendo?
- Porque achei que a senhora estivesse interessada.
- Você tá é doida.
Nã, nã, nã, uma veiota sem noção não ia acabar com meu dia. Ou piorar. Foda-se a boa educação, o respeito aos mais velhos, as conseqüências na próxima encarnação. Que eu volte como pulga, como pedra, como banda de pagode, mas não ia ficar quieta.
- Doida não. A senhora estava quase deitando em mim.
- Nem sei da onde que você tirou isso. Vaca.
- É o quê? Vaca?
- Vaca, puta.
- A senhora tá bêbada?
- Acha que velho não xinga? Otária. E agora cala essa boca que vou escutar uma música aqui no meu êmepêtreize.
- Vai nada! Agora a senhora vai me escutar. Só porque é uma velha acha que pode abusar, pode ser mal educada? Mas ó, a senhora fique sabendo que é uma velha muito feia, muita má, falei achando que velho é que nem criança. Mas não adiantou.
- Me deixa em paz, sua corna.
- Não, a senhora vai pedir desculpas.
- Porra nenhuma.
- Então toma essa porra de folheto. Agora vai ler tudo.
- Pára de empurrar isso, pára. Sai fora, sua drogada. Você usou tóxicos, foi?
- Drogada o caralho. Enfia essa merda no…
- Pára com isso, menina, não quero isso não. Sai pra lá.

A essa altura o ônibus todo já estava alvoroçado. Os mais próximos, que viram tudo, torciam por mim. Os mais distantes começaram a tacar papel, sem saber de nada. Percebi que a coisa ia ficar feia pro meu lado. Tive que levantar pela minha vida.
- Eu não fiz nada, essa senhora me agrediu antes.
Foi pouco. Vaias e objetos mais firmes começaram a vir em minha direção. Fui me encolhendo na cadeira e pensando no que fazer pra não ser linchada. Os gritos de fidaputa foram aumentando. Cheguei a escutar um "Ela agrediu a senhora! Vão descer a mão." Tentei pensar rápido. E meu instinto de sobrevivência só achou uma solução. Levantei novamente e com voz grossa e um sotaque que era mistura de bahiano com ovo na boca, mandei:

- Aqui é o demônho.
Na primeira frase o silêncio tomou o ônibus. Tratei de virar os olhinhos e lembrar dos programas que via nas madrugadas insones.
- Essa menina tá tomada, berraram lá de trás.
- Eu sabia!, disse a véia.
- Cala a boca, piranha, emendei eu, agora com liberdade diabólica para tal.
- Eu vou dominar o mundo todo. Começando por essa menina. Depois vou pegar vocês.
Meu plano estava dando certo. Os passageiros estavam paralizados e comovidos. Ao fundo ouvia gritinhos que iam de aleluia a "pára o ônibus que vou descer". Já ia desenvolvendo meu discurso quando ouvi:

- Sou pastor! Me deixem passar.
- Puta merda… pensei comigo, já prevendo o show.

Era um senhor bem branquinho, quase albino, magrinho que só. Foi lá pro meu lado e colocou a mão bem espalmada sobre minha cabeça. Fazendo pressão, me botou ajoelhada sobre o banco. Eu, pra manter a pose, ficava ali gemendo. E xingando a velha.
De repente, o senhor pastor se enraiveceu e começou a berrar "sai capeta, sai, volta pra não sei onde." Era fato. Eu tinha que interpretar. Dar tudo de mim, encontrar meu lado atriz. Era isso ou ser linchada. Abri o arquivo de referências de terror no meu subconsciente e passei a fazer tudo que vinha. Fazia uns sons inspirados no chewbacca, cantei ilariê ao contrário, uivei, tentei girar a cabeça 360º. E xingava a velha, claro.
- Velha doida! Vou te pegar de noite, vou arrancar sua cabeça, vou arrancar suas tripas pela bunda.

O exorcismo estava funcionando. Fui liberando tudo. Aproveitei pra xingar o chefe, o ex, a amiga traíra, o Bush, as micaretas. E uma paz interior inabalável foi me possuindo. O problema é que quanto mais eu amaldiçoava meio mundo, mais o pastor ficava agressivo. Me sacudia, balançava minha cabeça, puxava o cabelo. Quando senti o café da manhå subindo, achei melhor parar a coisa. Vomitar até cairia bem, mas não queria me sujar. Já estava livre de ser linchada àquela altura. Decidi que era hora de acabar. Fingi desmaiar na cadeira e pronto, ouvi uns gritos comovidos. Consegui. Virei a mocinha, vítima do mal. Até a véia foi me ajudar. Mulheres me abanavam, homens abriam espaço, criancinhas choravam, religiosos rezavam. Abri os olhos e fiz cara de coitada:
- Eu estou bem, eu estou bem, sussurei com uma voz bem fraquinha, cerrando os olhos como quem acabou de acordar.

E alguém repetiu:
- Ela está bem, ela está bem!
O ônibus todo, cada um com sua fé, foi agradecendo a seu Deus. Era graças a deus pra cá, aleluia pra lá. As pessoas se abraçavam, sorriam, comemoravam como copa do mundo. Eu levantei, acenei para o público e abracei o pastor, aplaudido por quase um minuto. Graças ao trânsito, meu ponto ainda não tinha passado. Mas estava próximo. Dei o sinal, agradeci a todos, pedi que rezassem sempre e prometi conhecer a igreja do pastor, chamada Tô com Deus e não Abro.
- É pra dar um ar jovem, ele me explicou.
Saí do ônibus aliviada e renovada. Nada mais eficiente que um desencapetamento pra acabar com uma TPM.


ilustração de galvão em www.vidabesta.com

20.11.08

Muda

redatorasdemerda.blogspot.com

Naquela noite resolveu finalmente se abrir com ele. Decidiu que iria despejar em seu colo todas as angústias, dúvidas, inseguranças que somadas seriam um prato cheio para qualquer psicanalista. Mas a vítima seria ele, que durante um ano evitou qualquer conversa mais profunda, que aprendeu a se esquivar mudando rapidamente de assunto, que emudecia toda vez que ela falava naquele tom.

- Guto...

- ...oi...

- Sabe o que é?

- ...não, não sei...

- É que eu tava pensando...

- Ah, lembra daquele livro que comentei com você? Chegou na livraria, o cara me ligou. Tava só esperando pra poder estudar mais pro concurso. Dois meses esperando, e a prova já é agora, em março.

Ela detestava esse assunto de concurso. Puta falta de criatividade. Que graça estudar por dois, três anos pra passar numa prova, trabalhar num serviço burocrático com pessoas que só estão ali pelo mesmo motivo, dinheiro e estabilidade, e fazer repetidamente algo que não vai contribuir em nada para um mundo melhor? Puta falta de graça.

- Em março?

- É, passou rápido... Bela, tá lembrando que não vou poder viajar no carnaval, né?

Agora ela engoliu o choro. Seria a primeira vez que viajariam. Era a chance que ela teria de poder ficar com ele sem interrupção. Fariam todas as refeições juntas, dormiriam juntos, tomariam banho, veriam as mesmas coisas e, enfim, ela teria tempo e jeito para conseguir dizer tudo aquilo que lhe rondava a cabeça.

Aquele ano tinha sido cheio de não ditos, e logo ela, tão verborrágica, parecia ter sido colocada de castigo. Era na marra que ela estava aprendendo a ouvir o silêncio e a engolir todas as perguntas que vinha na ponta da língua quando ele cumprimentava uma menina que ela não conhecia ou quando ele atendia o celular enquanto jantavam sexta à noite.

Mas de hoje não passava. O problema de tanto acúmulo é que o pobre sujeito é pego de surpresa e ouve tanta coisa ao mesmo tempo que não consegue processar. No meio do tororó ele perde o poder da audição e do raciocínio - não acompanha mais nenhuma frase, tudo pára de fazer sentido. Mas ela tinha que vomitar pra não engasgar. Aproveitou que ele saiu da mesa, não levou o prato até a cozinha e ainda estava procurando o controle remoto. Era a deixa.

- Bela, você viu o controle?

- Guto, quem vê tv aqui é você. Eu não vi nada. Aliás, não vejo nada há muito tempo. Não vejo você pensar na gente, não vejo você ter vontade de sair prum lugar diferente, não vejo você com aquela vontade de me comer, não vejo...

- Mas eu só...

- Quieto! Fica quieto! Você vai me ouvir nem que seja à força. Você só pensa em você. É essa merda de individualidade. Individualidade é o cacete. Quer individualidade vai bater punheta sozinho. Você é incapaz de...

Ela falou por uma hora e treze minutos, exatamente. Ele tinha a mania de marcar. Gostava dela e não conseguia entender de onde vinha tanta raiva. Só por que ele perdeu o controle remoto?

- Guto, fala alguma coisa!

- ...

- Fala!

- Eu...eu...

E pra se livrar de vez daquela situação, mandou pela primeira vez sem ter muita certeza do que dizia:

- Eu te amo, Bela.

Ela sentou no sofá e chorou por mais vinte minutos no colo dele. Mas antes, conseguiu achar o controle remoto que entregou pra ele como se fosse um prêmio.


ilustração de galvão em www.vidabesta.com

3.11.08

Telegrama

redatorasdemerda.blogspot.com
Ainda estava pregada em sua cama quentinha quando ouviu um barulho na rua. Demorou a entender a gritaria. Com a boca colada no travesseiro, se perguntou baixinho se tinha jogo do Brasil, corrida ou se era festa junina.

Alguns segundos mais foram necessários para Luíza entender que ainda era setembro, que não tinha jogo nem corrida e que, pior, era seu aniversário.

- Saco. Diazinho de merda. Foda-se que eu nasci há uma caralhada de anos.

Ainda assim, demorou a se atentar para a razão do furdúncio lá fora.

- Luíza Maria, vem aqui fora que nóis tem um recado de alguém que te ama muito.

Antes fosse um pesadelo. Luíza Maria resolveu fingir que não era com ela. Mas as vozes continuavam e a mestre da cerimônias grotesca insistia enquanto assassinava o português.

- Luíza, vem cá logo. Ou você quer que a gente entra, hein? Nóis veio aqui só por você. Foi o Edemar quem contratou nóis pra fazer dessa sua manhã um momento de magia encantada.

Não restava outra opção. Ou ela saía ou ela saía.

- Olha gente, é ela vindo aí! êêêê! Vamo bater palmas pra aniversariante!

A caminhada lenta e a expressão pesada de Luíza foram transformando a alegria contagiante da trupe bizarra em um constrangimento geral. Até os vizinhos curiosos, que desfilavam com seus pijamas na calçada, ficaram em silêncio.

Com cara de poucos amigos, poucos não, com cara de amigo nenhum, Luíza ficou parada na porta. Com uma das mãos tapava o sol. A outra estava apoiada sobre a cintura. Deu alguns passos e falou para a oxigenada que a acordou.

- Presta atenção. Eu odeio esse tipo de telegrama. Dá pra ir embora? Se não por mim, pelo amor de deus?

Virou-se pra Edemar e terminou.

- Porra, Edemar, isso tinha que ser coisa sua, né?
- Gostou?
- Olha minha cara de alegria.
- Parece alegria não.
- Claro que não, porra.
- Então não gostou?
- De qual parte? Das bexigas em formato de poodle? Dessa bandinha fedida? Da cabeça de Mickey no corpo do pica-pau? Ou dessa analfabeta com cara de candidata a big brother?

A multidão ficou em silêncio por uns segundos. Ouviam apenas a bandinha que continuava, ainda que bem baixinho, tocando Como uma Deusa. Luíza estava certa de que havia conseguido expulsar todos dali. Mas uma risada comunitária ensurdeceu a multidão.

-Eu tô falando sério, num é pra rir. Edemar, é assim que você quer voltar pra mim? Você vai conquistar é meu ódio desse jeito. Telegrama animado já é um horror. Mas esse daqui. Isso é o portal do inferno. Furreca até o talo, vamos lá, convenhamos.
- Eu não conhecia nenhum. Achei esse no catálogo.
- Você devia ter ido na letra T, de telegrama, e não na A, de aberrações.

Enquanto os vizinhos se esbaldavam de rir, os integrantes do telegrama foram saindo de fininho.

- Olha isso. Você espantou eles. São trabalhadores, Luíza. Acordaram cedo pra chegar aqui antes de você acordar.
- Se chegassem aqui meio-dia eles ainda iam me acordar, Edemar. Agora eu sou a vilã, é? Ó, Edemar, some que eu quero ficar sozinha. Além do que tá na hora do meu cocô da manhã. Gente, desculpa o tumulto, viu? Da próxima vez prometo que não falo nada. Jogo uma bomba logo.

E mais uma vez a multidão respondia com risadas.

Edemar foi embora direto pro bar, tomar uma cachaça. Se antes tinha que esquecer Luíza , agora tinha que esquecer a humilhação toda.

Quando entrava em casa, Luíza ouviu alguém gritando por ela.

- Ei!

Virou e lá estava um dos membros da bandinha, com uma roupa uns três tamanhos maior que ele. Tinha ombreiras douradas com uma franjinha encardida. Os botões eram grandes e cheio de rococós. Luíza deu uma manjada no rapazinho e mandou:

- Que foi, paquita?
- Eu sou Olavo, dono do Telegrama.
- Sinto muito.
- Tá ruim, eu sei. A Kátia Kelly, essa aí que chama as pessoas, é fraquinha mesmo. É que eu conheci ela num forró, quando eu tocava no Cueca Melada, e prometi que ia fazer ela ficar famosa. Era papo só pra pegar, sabe?, mas aí depois..
- Amigo. Pára. Tá me embrulhando o estômago.
- Desculpa. Mas então. Você é muito simpática, engraçada, espirituosa. Quer o emprego?
- Tá de sacanagem?
- Não.
- Isso faz parte do telegrama? Tipo... é a parte do susto, da pegadinha?
- Prometo que é verdade.
- Nem fudendo.
- 50 por telegrama.
- Tô fora, paquita.
- 55?
- Cara... de boa. Sai daqui.
- 60?
- Some. Vaza.
- Tá. Tô indo.

Ele já passava do portão quando ela gritou.

- Ô, paquita!
- Oi?

- Hehe. Olhou.

6.10.08

Valsa


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Viu Viagem a Darjeeling dias antes e ficou pensando com quem poderia dançar aquela valsa que fazia parte da trilha sonora da película. O filme falava de três irmãos que partiam numa viagem espiritual. Um bom motivo para viajar, pensou. Mas o que grudou mesmo foi a musiquinha que sofreu a ação do repeat em seu som por uma semana inteira.

Dias depois recebeu um pedido. Disse sim sem pensar direito no que estava fazendo. Tinha perdido o medo do desconhecido. O que achava que conhecia lhe assustava mais.

– Sim, o moço pode ficar lá em casa por alguns dias.

O rapaz era conhecido de uma conhecida que era amiga da mãe dele. Algo assim. Não quis entender também. Vinha em viagem, precisava de dois dias de pouso antes de continuar a jornada.

Chegou num domingo, tarde da noite. Isso já a aborreceu, a previsão era chegar à tarde. Detestava ter que mudar seus hábitos, ainda mais quando estava fazendo um favor. Por volta da meia-noite ela o recebeu em casa. E já nos primeiros quinze minutos ficou desconcertada por tamanhos olhos verdes que a olhavam agradecendo pela gentileza concedida. Há muito tempo não via ninguém olhar assim nos olhos dela com tanta sinceridade. Pensou por que as pessoas não se olham nos olhos. Lembrou-se do namorado que conversava com ela olhando para frente.

Trocaram algumas palavras, ela ofereceu comida, uma toalha limpa e indicou o caminho do banheiro. Deram-se um sincero boa-noite e foram dormir, cada um em seu quarto. Ela tentou se livrar o mais rápido possível da lembrança daquelas duas bolotas verdes que pareciam atravessar o pensamento. Na manhã seguinte, saiu para o trabalho e não chegou a ver o rapaz. À noite, na volta do trabalho, veio pensando se não era uma maluca por ter deixado um estranho ficar em sua casa. Em tempos que filhos matam pai e pais matam filhos, como se pode confiar em alguém?

Pouco lhe importava a resposta, já estava feito. Ia sair e ficou sem pensando se o convidava ou não. E sem muita alternativa, levou ele junto pro boteco. Os de sempre estavam lá, amigos de falar besteira e agora curiosos para conhecer o sujeito. E como tudo numa mesa de bar fica mais divertido, assim foi. Conversaram até o bar expulsá-los. Ela e o visitante voltaram pra casa como se fossem velhos conhecidos. E dividiram a mesma indignação por terem que interromper a conversa, a bebida e as risadas. Ela resolveu o problema: ficaram na varanda do apartamento acompanhados de vinho, música e bom papo.

A noite já estava virando dia quando ela se lembrou da valsa do filme e da imensa vontade de dançá-la com alguém. Ele não tinha como negar, pensou, ia ser um favor em troca de outro. Tratou de correr para buscar o CD e colocar no aparelho de som. Ele, com as bolas de gude no lugar dos olhos, ficou observando sem entender o que ela fazia. Apertou o play e nos primeiros acordes de Where do you go to, my lovely, pediu que ele a tirasse para dançar. Dançaram meio que sem ritmo no meio da sala, tropeçando numa cadeira, esbarrando na estante. Ninguém se importou, nem mesmo quando a música acabou e a dança continuou de outras formas.

E de tudo o que aconteceu, a visita inesperada, a possibilidade de estar fazendo uma loucura, os contratempos de se ter um hóspede desconhecido em casa, de todas as coisas ela só se arrepende de uma. De não ter acendido a luz durante o tempo em que não se desgrudaram, com e sem música. E de não ter visto bem de pertinho todo aquele verde que bem dizem, quer dizer esperança.

Ilustração de Maurício Nunes.

24.9.08

Todo mundo

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- Ô, treco-treco, já pedi pra você não misturar as cuecas sujas
com o resto da roupa.
- Ah, treca-treca. Todo mundo faz isso.

Nada era pior do que ouvir isso. O “todo mundo faz” e suas
variações assombravam o lar cheio de amor de Ana Lúcia e
Milton. Não havia uma bendita reclamação dela que não fosse
rebatida com a maldita frase.

Esquecer de levantar o assento da privada, do aniversário de
casamento, não ajudar a lavar louça, dividir tudo em parcelas a
se perder de vista. Todo mundo faz.

Por mais que tentasse ignorar, Ana Lúcia se irritava cada vez
mais com a desculpa porca do marido. Da onde ele tirou que
agindo igual a todo mundo estaria fazendo a coisa certa? No
começo apelou para máximas infantis:

- E se todo mundo se jogar de uma ponte? Você também se joga?
Se todo mundo comer cocô você também come
- Aí é diferente, trequinha.

Mas ela não acreditava mais. Àquela altura, se Milton oferecesse
um bolo de chocolate, ela olharia desconfiada.

- Trequinho, gritou Ana estatelada no sofá, aproveitando o bom
humor de Milton, que havia acabado de sair do banheiro batendo
na barriga. Amanhã de manhã o pintor vem aqui. A gente precisa
arrastar os móveis todos pra varanda. Tem como desmarcar o
futebol de hoje à noite pra gente ver isso?

Ela ainda foi educada ao perguntar se “tinha como”, quando na
verdade estava sendo imperativa. Milton não entendia as
sutilezas da fala feminina.

- Treca, me pede tudo, menos isso. É semifinal, aninha. Guerreiros
contra os Goonies.Todo mundo vai estar lá.

Ana Lúcia ensaia falar algo, mas corta a palavra antes mesmo de
emitir qualquer som. Engole o ar, tenta disfarçar a expressão de
raiva e diz:

- Não é a casa de todo mundo que vai ser pintada. É a nossa.
- Eu sei. Mas você nem precisa de mim. Chama o Nelson.
- Milton, você acha mesmo que eu ia ter cara de pau de chamar o
vizinho pra fazer um trabalho que é meu e teu?
- Ele já te olha de um jeito diferente que eu sei. Arrasta um
caminhão por você. Imagine então uma mesinha, umsofá. Fácil.

Irritada, Ana Lúcia vira as costas e segue pelo corredor pisando
pesado. Dois passos depois, volta, aponta o dedo na direção de
Milton, ensaia começar alguma frase e então se recompõe.

- Você não tem ciúme? Não tem orgulho? Não tem porra
nenhuma, né?
- Tenho sim. Tenho futebol hoje à noite e todo mundo tá contando
comigo.

Entre maldições e pragas, Ana Lúcia sai da sala e vai embora sem
nem se despedir de Milton. À noite, sem ajuda de vizinho nenhum,
ela arrasta tudo sozinha. Milton chega tarde, depois do futebol,
fedendo a uma mistura de caipirinha barata e cerveja que secou
na roupa.

- Ô, amor... eu ia te ajudar. Mas é que os Goonies ganharam e a
gente fez concurso de quem imitava melhor o Slot.

A história era engraçada, mas Ana Lúcia se manteve imóvel,
olhando para a TV, fingindo escutar o que os repórteres
falavam. Jurava que no lugar da cabeça tinha uma chaleira.
Sentia a fumaça saindo e um apito irritante avisando que a
coisa estava feia.

- Você não pode ficar nervosa. Eu contei pros caras dessa
situação nossa e eles disseram que todo homem precisa disso
mesmo. Não fica chateada. Não tem nada a ver com a gente
enquanto casal. É coisa de homem, sabe como?
Tá entendendo?

Antes que explodisse, Ana Lúcia caminhou para o banheiro e
bateu a porta na cara de Milton. Lá dentro, pegou uma
toalha, apertou contra o rosto e gritou até onde ao
abafamento permitia. Saiu do banheiro mais calma e meio
rouca, e falou:

- Fale qualquer coisa. Admita que não queria ajudar. Admita
que é um merda, um preguiçoso. Mas pare, em nome do
Santo Antônio que me arrumou você, pare de falar que faz
as coisas porque todo mundo faz.

Lembrou-se de todas as vezes em que ele colocou o mundo
inteiro a seu favor de forma totalmente inapropriada. Quando
a pediu em casamento disse ‘vamos casar gatinha? Tá todo
mundo casando, é nossa vez”. Na hora de escolher um
apartamento, cismou que queria Bento Ferreira. “É o bairro
do futuro, todo mundo tá comprando lá”. E a raiva que fez
ela distribuir perdigotos na toalha, foi se transformando em
algo pior. Uma decepção enorme e irreversível.

Um dia, Milton chegou em casa e não encontrou a mulher lendo
no sofá, como de costume. Achou que ela ainda não tivesse
chegado e seguiu para o quarto. Sentiu ainda no corredor cheiro
de cigarro. “Mas que diabos é isso se Ana não fuma?”. Quando
abriu a porta, lá estava trequinha e o vizinho, deitados, cobertos
apenas pelo lençol, fumando um Malborão vermelho.

Enquanto Nelson rolava para baixo da cama, Ana Lúcia se
manteve firme encarando Milton. Parado também ficou ele.
Bufando na porta, indignado, estático. Foram 10 segundos,
que para Nelson pareceram horas.

- Por que você fez isso? Por quê?!

Ela ensaiou um sorrisinho de lado, apenas com o canto da boca.
Lá dentro apenas repetia em silêncio: ué, todo mundo faz isso.
Pensava com força, como criança que se concentra para tentar
mexer objetos. Queria que Milton lesse a mente dela.
Deixou ele se esgoelar na porta.

- Fala! Fala! Eu sei que é vingança. Eu sei que você tá doida pra
dizer que todo mundo faz isso. Num é? Fala! Fala!

E ela se manteve em silêncio. Milton saiu chutando a parede
pintada, os móveis que comprou na loja onde todos amigos
compravam. Mas não ouviu nada dela. Antes tivesse.

Na quarta seguinte foi ao futebol defender os Goonies.

- Qualé, Miltão, cadê a coleira de dedo?
- Deixa pra lá.
- Ih, foi briga. Fica puto não, cara. Todo mundo passa por isso.

Ninguém entendeu por que Milton voou no pescoço de Adélio,
sacudindo ele de um lado para o outro, gritando coisas
incompreensíveis. Nem nunca entenderiam. Milton largou o
futebol e foi largado por Ana Lúcia. E quando perguntam se a
culpa é dele, ele diz que não. Que a culpa é de todo mundo.

ilustração de Claudio França

12.9.08

Certeza

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Existia uma vida nele que lhe era desconhecida. Esteve guardada por muito tempo, a espera de alguém que o fizesse juntar os pontos para enxergar o novo desenho, estampado ali na frente. Até então, vivia na resignação. Continha os sonhos abafados para que eles não mudassem o curso da realidade. Sua certeza, a única talvez, era de que ela sempre seria maior, mais dolorida, mais cinza, mais onipresente do que todas as outras coisas a sua volta.

Assim foi quando soube na notícia da morte do avô. Precisou rapidamente se desfazer da fantasia de pirata, não só das roupas e do tapa-olho. Mas de toda aquela alegria boba que de repente se tornou ridícula. Era como levar um tabefe no meio de uma boa gargalhada. Aos 10 anos tomou raiva de carnaval. E dali pra frente ser sério lhe pareceu a melhor alternativa para não passar por outra dessa novamente.

A morte, aliás, habitava o cômodo ao lado do seu, no pequeno apartamento que dividia com o pai, a mãe e a avó doente. Mas, dessa vez, não haveria fantasia para atrapalhar quando a notícia chegasse. E ela veio quando ele tinha 17 anos. Sem o pai por perto, teve que tomar todas as providências funerárias. Dali, aprendeu que a variedade de caixões é enorme e que se você não se mantiver atento, acaba levando o mais caro.

Tempos depois, a mãe adoeceu. O pai, de diferentes formas, sempre se manteve ausente. A ele, não restava muito. Sabia o peso que, mesmo sem querer, era inteiro seu. Pensou no rumo mais ordinário que a vida toma. Resolveu que iria se casar, deu entrada na compra de um pequeno apartamento na periferia da cidade. Pequeno, quente, longe. Mas não precisava de muito. Continuaria trabalhando, visitaria a mãe nos fins de semana, passearia com sua mulher. Não teve tempo para pensar sobre ter ou ter filhos. E por que pensaria? As coisas simplesmente iriam acontecendo.

Assim é a vida. Tentou mesmo acreditar nisso por algum tempo. E de novo a morte tomou- lhe mais um pedaço. O que morreu dessa vez foi o amor. Não chegou a casar, mas ficaram as dívidas do apartamento para administrar. Só que ele resolveu parar por ali mesmo. E matou aquele velho homem que nada tinha vivido, nada tinha experimentado e muito pouco sonhado. Deixou tudo para trás. Resolveu viver sem saber direito para que ou quem se vive. Tudo que era efêmero lhe atraía. Pequenos prazeres, casos curtos, amores rápidos, nada que tivesse objetivo e sentido. Até hoje vive assim. Uma vez lhe perguntaram se era mais feliz desse jeito. E com as poucas certezas que ainda tinha, pôde responder: não, claro que não.

Ilustração de Claudio França.

2.9.08

Onofre


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Nunca saía sem casaco. Mas fazia tanto calor que preferi deixar em casa. Passava os dias na biblioteca. Na época fazia mestrado. Escrevia bonito, rápido. Usava palavras que nem os professores conheciam. Tinha facilidade pra isso. Eu era muito concentrada.

Ia percorrendo aquelas filas de estantes cheias de livros passando as mãos pelas capas. Gostava de sentir a ondulação. Imaginava como cada um deles poderia mudar minha vida de um jeito. De culinária a física quântica.
Mas precisava me concentrar em uma única prateleira.

Do vão central da biblioteca, olhando para a direita, haviam 10 fileiras bem compridas. Eu entrava entre a oitava e a nova. E me sentia entrando entre vértebras de um corpo. Um gigante. No final da primeira carreira de estantes, eu virava à direita e depois à esquerda. Lá estava a minha estante. Letra P. Parava ali, enchia as mãos, os braços, os cotovelos e qualquer dobra mais que pudesse servir de apoio. Ta rindo, né? Hum, espera que tem mais.

Nesse dia, no dia exato em que deixei o casaco em casa, devia imaginar que algo inusitado me surpreenderia, além de uma gripe ou uma chuva. E aconteceu. O celular tocou quando eu passava em frente à letra J. Eu jamais esquecia de colocar no vibra. De repente, do meio de um pequeno vão entre as estantes, surgiu um moço com o indicador rente aos lábios contraídos, pedindo silêncio. Acho até que ele treinava para as olimpíadas, porque foi rápido à beça. Só não me assustei mais com ele do que com a notícia que recebi. O moço da van, que me buscava todos os dias, pontualmente às 21h30, tinha sofrido um assalto. Bateram nele e roubaram tudo. Incluindo a van.

Minha concentração ficou completamente comprometida. Tentei pelo resto do dia enfiar as frases dos livros na minha cabeça. Mas nada fazia sentido. Nada se amarrava. Mas logo o seu Onofre. Senhor branquinho, olhos cansados, pançudo, costeletas grisalhas emoldurando um cabelo tingido de preto, que ele mesmo fazia questão de ridicularizar.
- Tem que se cuidar, a clientela gosta de um motorista bonitão.

A aparência ligeiramente bruta e oleosa enganava quem julga um livro pela capa. Era doce, educado e gentil. Pensava na família do seu Onofre, se ele sairia no jornal, se algum dia escutaria Amado Batista novamente no caminho de casa.

O dia rendeu meras 13 linhas. 13. E só a fome me despertou para a hora. 20h30. Poucos ônibus passavam por ali. Juntei tudo como pude e corri para tentar pegar o das 20h35. 13 linhas. Chovia e fazia frio. Que falta fazia meu casaco. Decidi correr, ainda que escorregando. O caminho que levava para fora da biblioteca era longo. Um gramado com poucas árvores cercava um pequeno e estreito caminho de paralelepípedos. Alguns postes de luz amarelada iluminavam as raras pessoas que passavam ali.

Chegando ao cruzamento, abusando de meu equilíbrio sobre as pedras deslizantes, parei repentinamente. Parado, logo na ruazinha que escolhi pegar, o moço do celular. Sorri pela coincidência. Dois sustos em um só dia. Ele tinha talento pra isso. E achei que finalmente uma coisa interessante poderia salvar o dia. Mas ele não devolveu o sorriso. Na verdade, ele continuou sério. Muito sério. Senti um arrepio na espinha, desses que sobem até o cérebro pra avisar que tem algo errado acontecendo. Tomei Impulso para continuar a corrida, mas quando passei do lado do moço, senti algo freando meu corpo, como um cinto de segurança durante uma batida. O impacto fez com que eu fosse projetada pra trás. Senti a pancada da cabeça atingindo o chão, mas nenhuma dor. Apenas uma pressão forte.

Sem conseguir reagir, notei que estava deslizando pelo chão, como alguém boiando em uma piscina, num dia de sol. Sentia agora as gotas retidas na grama úmida penetrando minha blusa fina. Folhas finas me cortavam bem de leve. Só então entendi que algo me puxava pelos cabelos. Mas o zunido no ouvido ainda deixava dúvidas de que eu estava acordada. A certeza veio quando uma mão enorme tapou meu rosto com força. Em seguida, um corpo tapou o meu. Tentei achar alguma força, um reflexo qualquer que me fizesse levantar rápido e correr. Não encontrava nada. Estava presa dentro de mim.

Enquanto uma das mãos continuava segurando minha boca, a outra abria minhas calças e lutava contra o atrito do corpo, para baixá-la o mínimo possível. Tremi nessa hora. E foi o máximo de reação que consegui. Um tapa
na cara nem teria sido necessário para me acalmar. Na pressa em rasgar minha calcinha, ele machucou a lateral do meu quadril com a força do tecido sobre a pele.

Dentro de mim ele se descontrolou. A palma da mão escorregou sobre meu rosto e fez com que a cabeça toda girasse para a direita. Via um poste um pouco adiante. Dava pra ver uma chuva fina cair através da luz. Enquanto meu corpo todo era arrastado para frente e para trás, tentava contar quantas gotas caíam. Uma...duas... três... mas então, uma dor tão grande submergiu,
que perdi as contas. Meus sentidos estavam voltando apesar do zunido não passar. Agora não conseguia mais negar. Algo estava me invadindo, me rasgando de forma seca, ardida. Senti nojo e um grito escapou. Um outro tapa me calou, mas agora eu chorava. O choro saía baixo, entre o indicador
e o dedo médio dele. O mesmo indicador me silenciando novamente.
O vento batia nas lágrimas e sentia meu rosto congelando.

Enfim, ele parou. Senti calor por alguns segundos. E um certo alívio por tudo ter acabado. Da mesma forma como ele me derrubou, me abandonou.


Durante os dez meses seguintes, eu repassava a minha rotina naquele dia. Imaginava tudo que poderia ter feito de diferente. Deveria ter voltado pra pegar o casaco. Deveria ter entendido o azar por trás das 13 linhas. Deveria ter ido visitar seu Onofre. Deveria ter voltado mais cedo. Tentava achar motivo, explicação, qualquer coisa que trouxesse algum conforto. Não deu certo.

A depressão me fez esquecer de tudo mais. Larguei o mestrado, não fui à polícia, não fiz exames. Achava que se tivesse pegado qualquer doença seria abençoada. Com sorte morreria. Mas sobrevivi. Seu Onofre não. Irônico, né?

Eu sei que você não está entendendo nada do que eu falo, Onofre. Até riu nas partes tristes. Mas eu me sentiria mal se nunca te contasse a verdade, ao menos uma vez na vida. Não sei se você entenderia minha escolha. Eu mesma não entendi. Acho que estava tão apática que só me restou deixar acontecer. Vou te amar se você também prometer me amar. Acho que a gente pode tentar né? E até conseguir. Mas quando você crescer e perguntar como conheci seu pai, desculpe, vou mentir.


ilustração em www.vidabesta.com

15.8.08

Tara


redatorasdemerda.blogspot.com
Não agüentava ficar mais de uma semana sem sexo. Mas quem olhava, não dizia. Era recatada, tímida, não ria alto, nem tinha aquele olhar lascivo, não tinha boca pintada, não usava roupas justas tampouco decotes profundos. Parecia sem graça, dos pés à cabeça, parecia ser assim sempre.

Mas depois que terminou o noivado, não passava um dia sem pensar em dar. Continuava com a mesma capa de menina-moça, mas a mente era uma pornografia só. O noivo, que a conhecera na intimidade, sabia bem dos desejos da garota. Confirmava a sabedoria popular, que diz que as quietas são as piores. Era o noivo meter-lhe a mão entre as pernas que ela se transformava. Primeiro molhava-se inteira de tanta excitação. E toda aquela umidade do meio das pernas ela gostava de passar pelo corpo todo. Nessas horas, seu cheiro mudava, seus peitos de menina tornavam-se cheios e bicudos. O cabelo solto, a boca vermelha pelo sangue que corria mais rápido, depois de tantos beijos sugados, quem a visse agora, julgaria: vadia.

O noivo a trocou por outra, mais fogosa, mais endinheirada, mais mulher. Ela, sem ter ninguém, tentava suprir seus desejos primários enchendo a imaginação de fantasias que jamais pensou que pudesse ter. Imaginava-se sendo seguida pelo porteiro do prédio nas escadas, tenho a calcinha arrancada à força. Desejava enfiar na boca todos os dedos do seu professor, mesmo sujos de giz. Torcia para que um estranho na rua lhe passasse a mão. No ônibus, gostaria de ser encoxada pelos operários que iam cedo para o trabalho. Mas se um homem a abordava com mais veemência, ela baixava os olhos e dava um jeito de sumir dali.

Entre a angústia, a timidez e o desejo, não sabia ao que ceder. A mãe desconfiou. Os olhos da menina estavam mais fundos, a comida ficava toda no prato. Vivia dizendo, seu mal foi ter se entregado praquele safado do Beto. Mas só ela sabia que não era o Beto o seu problema. Era o que ele tinha feito com ela. De ter mexido onde mexeu, de ter enfiando tanto os dedos, a língua, o pênis em todo os seu buracos. A ponto de ela não saber de qual havia gostado mais, do que mais lhe dava prazer. Definhava. O cabelo entupia o ralo do banheiro, a mãe se zangava.

– Amanhã mesmo você vai ao médico.

Não queria médico, não estava doente. Como iria dizer para o doutor: só penso em sexo. Mas foi. A mãe era implacável. Ela foi.

- Por favor, tenho hora marcada.
- Pois não, o doutor a espera.

Entrou de cabeça baixa, o doutor pediu que vestisse o avental verde-água e se deitasse na maca. A enfermeira ajudou a posicionar as pernas nos dois suportes laterais. Deitada de frente, com as pernas abertas e suspensas, parou de sentir frio. O rosto agora queimava, ela sabia exatamente o que isso antecedia. O médico gentilmente apalpou seus seios, pressionou seu ventre enquanto ela ardia e corava. Educadamente, o médico avisou-lhe quer iria tocá-la e sem que ele conseguisse concluir a frase, ela já estava gritando:

- Por favor, por favor!

Ilustração de Maurício Nunes.